segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

sexta-feira

na pista, não vi ninguém.
dancei pra dentro de mim.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Todos os dias são felizes e tristes

Todos os dias são felizes e tristes, pensei, ao olhar pela janela, de noite, pela primeira vez. Digo: olhar pela primeira vez de noite, através daquela janela nova; todos os dias são felizes e tristes porque são dias felizes para alguém e, ao mesmo tempo, tristes para outrem.

Duvido que tenha existido um só dia completamente feliz nessa vida, desde que o homem começou a habitar o planeta.

Existem dias felizes e tristes para os bichos? Não sei.

Hoje peguei as chaves do novo apartamento, à tarde, sob o sol de quarenta graus de início de dezembro, e à noite fui visitá-lo, vazio. Joguei na mochila uns livros, pra já deixar lá (pois livros fazem parte do rol de coisas chatas de se levar em mudança), peguei uma cerveja gelada, uns cigarros e fui, de bicicleta, pra ver lá de cima a paisagem, sentir um pouco do novo ambiente, minha nova casa.

Morar é coisa tão importante. E a cidade tem destruído muito da nossa existência, apertando os cômodos, aumentando os aluguéis, jogando pra periferia, jogando as pessoas na rua.

Já mudei de casa dezenas de vezes. Mudar a paisagem é bom. Teve uma época em que mudei do 401 pro 402 e depois pro 404, alguma coisa assim, em Niterói. Desta vez eu mudo do 11, pro 11. Décimo primeiro andar. Só que, ao contrário daqui, o 11 lá é o último. Ninguém pisando sobre nossas cabeças, pensei. A metáfora tem algum sentido prático bom. Ninguém pisando sobre a minha cabeça – não deixa de ser verdade.

Novamente moro de frente pra uma escola, de frente pra uma igreja, de frente para as florestas. Menos ruas e carros, mais telhados. Menos barulho, mais silêncio.

Quem sente o cheiro da sua casa são os outros. Já parou pra pensar? É como perfume, que a gente passa, mas não sente, ou sente de forma diferente de todo o resto. A casa é um pouco de cada um.

Caiu uma tempestade, turvando a vista. E eu pensei que os novos inícios têm sempre um pouco do último fim.

Saí pra chuva, me banhar com água do céu. Um gosto de metal.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

água mole

O amor é definhável.
Basta ser persistente.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Racionalidade [ou: Um pouco de mim]

Classifico como duras as palavras que possuem molduras fortes, engessam o conceito, fixam, limitam ou impedem a mudança. Prefiro membranas mais permeáveis, ou poucas fronteiras, conceitos mais flexíveis.

Se há palavras que me incomodam demais, são as duras como “sempre”, “nunca”, “jamais”, “impossível”. Evito-as, elas podem até escapar, por descuido, mas, em geral, não uso. Prefiro “talvez”, “não sei”, “provável”, "difícil".

Nesse sentido, considero-me um otimista, oponho otimismo a fatalismo. Posturas fatalistas me angustiam, me incomodam profundamente. Costumam atrelar-se a conformismos.

Prefiro não dizer que algo é impossível, que algo nunca irá acontecer, que alguma coisa ou situação jamais terá solução. Não acredito em deus ou milagres e não sei o que é a realidade. Quem sabe o que é a realidade e seus limites? Quem é capaz de dizer o que é impossível?

As palavras e o que elas abraçam, dão conta, são engendramentos muito poderosos.

Há muito tempo, passei a me esquivar de juramentos e promessas. Ainda adolescente, comecei a olhar com mais rigor o sentido desses posicionamentos. Deste então, me oponho a eles. Provavelmente, foi uma postura tomada numa época em que passei a me desvencilhar com mais rigor dos vocábulos que diretamente ou de alguma forma tinham ligação com situações religiosas.

Comprometo-me, asseguro compromissos, mas prometer é praticamente uma liturgia. Não pronuncio. Eu não prometo. Eu não juro.

No fim das contas, trata-se de purismo.

Uma postura criteriosa para não usar palavras duras implica um tipo de dureza também, mas a vida é assim, cheia de contradições. Mesmo o pensamento lógico e a racionalidade estão cheios de paixões.