quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Todos os dias são felizes e tristes

Todos os dias são felizes e tristes, pensei, ao olhar pela janela, de noite, pela primeira vez. Digo: olhar pela primeira vez de noite, através daquela janela nova; todos os dias são felizes e tristes porque são dias felizes para alguém e, ao mesmo tempo, tristes para outrem.

Duvido que tenha existido um só dia completamente feliz nessa vida, desde que o homem começou a habitar o planeta.

Existem dias felizes e tristes para os bichos? Não sei.

Hoje peguei as chaves do novo apartamento, à tarde, sob o sol de quarenta graus de início de dezembro, e à noite fui visitá-lo, vazio. Joguei na mochila uns livros, pra já deixar lá (pois livros fazem parte do rol de coisas chatas de se levar em mudança), peguei uma cerveja gelada, uns cigarros e fui, de bicicleta, pra ver lá de cima a paisagem, sentir um pouco do novo ambiente, minha nova casa.

Morar é coisa tão importante. E a cidade tem destruído muito da nossa existência, apertando os cômodos, aumentando os aluguéis, jogando pra periferia, jogando as pessoas na rua.

Já mudei de casa dezenas de vezes. Mudar a paisagem é bom. Teve uma época em que mudei do 401 pro 402 e depois pro 404, alguma coisa assim, em Niterói. Desta vez eu mudo do 11, pro 11. Décimo primeiro andar. Só que, ao contrário daqui, o 11 lá é o último. Ninguém pisando sobre nossas cabeças, pensei. A metáfora tem algum sentido prático bom. Ninguém pisando sobre a minha cabeça – não deixa de ser verdade.

Novamente moro de frente pra uma escola, de frente pra uma igreja, de frente para as florestas. Menos ruas e carros, mais telhados. Menos barulho, mais silêncio.

Quem sente o cheiro da sua casa são os outros. Já parou pra pensar? É como perfume, que a gente passa, mas não sente, ou sente de forma diferente de todo o resto. A casa é um pouco de cada um.

Caiu uma tempestade, turvando a vista. E eu pensei que os novos inícios têm sempre um pouco do último fim.

Saí pra chuva, me banhar com água do céu. Um gosto de metal.

Um comentário:

Maria Eu disse...

Vamos deixando pedaços de nós nas casas por que passamos...