sábado, 14 de junho de 2014

Saturno

Esperávamos o próximo ônibus, eu e papai, na rodoviária. Apenas nós dois e como se apenas os dois no mundo, a lanchonete sem atendentes e clientes, vazia. Nós, sentados à beira do balcão, nada consumíamos, pouco conversávamos. 

Quando o primeiro ônibus estacionou no terminal, não havia nada que identificasse seu itinerário. Tratei, assim, de escrever para onde ele iria, a lápis, no letreiro frontal. O motorista, então, pronunciou-se, e disse que aquele carro não iria para onde queríamos. Teríamos de esperar o próximo. 

Voltei a sentar ao lado de papai, que do lugar não movera um dedo. E tratamos de conversar sobre um brinquedo que ele segurava, enquanto aguardávamos o próximo coletivo. Achávamos graça de sua forma, que ora parecia um caramujo, ora parecia qualquer outra coisa. Não me lembro de onde saíra aquele objeto, mas dedicamo-nos a passar o tempo especulando sobre o que seria. Era feito de plástico, o casco do caramujo preto, seu corpo num marrom muito claro. O casco mais duro que o resto, com traços quadrados, estranho para simular a forma de um animal. Devia ser mesmo outra coisa. 

Num descuido, papai cortou o dedo ao deslizá-lo sobre uma das partes mais grossas, sangrando por alguns minutos, porém, sem dar muita atenção. Papai já se feriu tanto nessa vida, que um corte bobo no dedo não faria diferença. Entretanto, deixamos o brinquedo de lado. 

Hora depois, ao anoitecer, Saturno desprendeu-se de sua órbita, passando em velocidade absurda pelo céu. Por alguns instantes, foi possível vê-lo atrás das nuvens. O céu estava verde, azul, cinza. Havia reflexos de astros desconhecidos. E, apesar de tudo, não nos assustávamos com o terrível. Era apenas um planeta fora de órbita que, misteriosamente, havia se desprendido de sua posição eterna. 

O homem nunca enviou uma sonda para Saturno. Ninguém jamais pisou lá. 

Naquela noite, concluímos que não seria necessário temer o terrível. Mesmo assim, procurando ter serenidade, por ele esperamos.


2 comentários:

Anônimo disse...

Até os planetas mais austeros se desprendem de suas posições eternas. Vamos brincar enquanto esperamos, imaginar onde nunca pisamos e viver o que desejamos, sem temer o terrível. Pequenos cortes não fazem tanta diferença, dado o tamanho do céu.

Maria Eu disse...

Belo post e comentário acima à altura!