terça-feira, 22 de julho de 2014

Um domingo

Ao longo da vida, temos certos desejos, pensamentos e vontades tão íntimos, que não partilhamos com ninguém além de nós mesmos. Alguns deles latejam por dentro, pedindo pra saírem em algum momento, capazes de criar angústia quase insuportável. Vontades clamam para irromperem em voz alta, para se materializarem, em alto e bom som. Há aquelas que encontram, afinal, sua hora de nascer. Alguns pensamentos a gente leva pro resto da vida. Ninguém tem acesso a ninguém, em sua totalidade.

“Desejo muito que você faça parte da minha vida”. Certa vez, acometido por uma paixão devastadora, escrevi isso num caderno. Eu precisava tanto, mas tanto, externar o meu desejo, que, impossibilitado de dizer as palavras à pessoa amada, encontrei no papel e na tinta a ínfima válvula de escape pra contar a mim mesmo, como me duplicando e criando um interlocutor que pudesse me ouvir, que estava afogado numa paixão-acontecimento, aparentemente impossível de se transformar em algo além.

Outro dia, ao arrumar a casa, mexendo nesse caderno, abri por acaso a tal página, verdadeira máquina do tempo para uma época intensa, de esperança feliz. O amor é capaz de vagar como um fantasma, às vezes aparece numa esquina, numa festa. Tenho me assustado com minha própria sombra. 

Acho que, finalmente, me acostumei com o novo apartamento. Ouço as conversas dos vizinhos. Assim como o cheiro das refeições, elas insistem em entrar pela janela. “Você vai pro judô?”, “sua cunhada prestou aquele concurso?”, “quem é o bebê do pai?”, “Flamengo jogou muito mal”. Nunca ouvi nada absurdo, as piores coisas a gente deixa pra falar baixinho. Não é de hoje que as paredes têm ouvido e vizinhos sabem muito bem disso. Que som devem pensar de mim? 

Apartamentos pequenos têm seus mil problemas. Por um descuido, o alho e a cebola refogados ficam impregnados na roupa do varal, e a gente precisa lavar tudo de novo. Outro ciclo, outra água, quanta repetição. 

Lembro-me de quando morava numa república em Niterói, e conversava com a galera vizinha, lavando roupa às duas da madrugada, na área de serviço. Tinha um apartamento cheio de estudantes de Farmácia. O meu era mais diverso.

Talvez eu seja um bom vizinho, ninguém nunca reclamou. Também não tenho o que reclamar dos outros. 

Se tem uma coisa que eu amo, é abajur. Pago até conta de luz mais cara, só pra manter o espectro vermelho na mesa do quarto. Convenci-me que traz energia boa, agora vermelho é minha energia preferida. Funciona. Comprei um florido pra sala que, aceso, gera penumbra docemente amarela, a cor da languidez. Deito no sofá e ponho-me a perguntar se as próximas gerações saberão ser menos vítimas da hiperinformação, do multitask, da internet. A gente tende a imaginar o mundo tão distópico, mas isso é porque o ser humano conhece bem a si mesmo. A existência, por si só, já é suficientemente absurda. Mágoa é um sentimento que a gente quase pode enxergar. Carrossel de guindastes. Quem sente o cheiro da sua casa são os outros. Quantas pessoas já habitaram o mundo? É possível existir fora do corpo? Fagocitose de tempo. Ao final, o que você terá feito da sua existência? A vida é massa puxada por vetores, não existe equilíbrio, apenas tensão. O melhor regalo é o epitélio. Viajo, e concluo que pensar no mal é bom, tomo uma taça de vinho, acendo um cigarro, olho pro céu.

"O seu amor não é suficiente pra mim", isso foi uma das piores coisas que já ouvi na vida.

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