sábado, 7 de novembro de 2015

saudade

lembro de quando eu te chamava só pelo sobrenome,
depois pelo nome,
depois pelo sobrenome.

depois já não podia te chamar.

como vc faz feijoada rapidinho.
minifeijoada, sempre amei isso.
o cheiro do caminho na barriga.
jeito baiano de segurar a taça.

de como você tragava.


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

touro

até os 27, mais ou menos, eu não conseguia usar nada vermelho. até os 27, mais ou menos, eu me considerava um cara racional pra caramba, porque na verdade eu me comportava, em linhas gerais, bem racionalmente mesmo

teve esse dia em que chegou uma paixão avassaladora. feito tsunami arrastou tudo, razão, cálculo, matemática, quadrados, retas, réguas, arestas, geometrias, matrizes, organogramas. sobrei eu no meio das roupas pra passar, no meio das roupas pra lavar, sentado no chão, pensando na vida

acho lindo demais paixão. fraqueza expõe a gente, humana. arrepio de relar um joelho no outro, pegar na mão, beijar no rosto quase a boca, sentir o cheiro, sentir o perfume na peça de roupa esquecida em casa

aos poucos, depois de tanto sangue quente nas veias e nos olhos, passei a usar o vermelho na parede, no pé, uma camisa, um abajur. quente, um quadro que compramos na Argentina, um quadro que pintei

***

precisava chegar em tua casa e a forma mais rápida era virar pássaro. negro, deixei criar asas que me eram pesadas, mesmo sustentando ossos pneumáticos. respirei fundo, tomei fôlego, deveria cruzar o mar. assim, inexperiente, senti-me amedrontado, mas chegar do outro lado era maior que todas as coisas. tomei impulso, flexionei as pernas, abri os novos braços e planei. linda liberdade de estar no céu. rodopiar, voando. voar.

sentindo o vento, cheguei à tua porta. em tua casa repousei em lençóis limpos e cama macia.

***
cisco no olho, pedra no sapato, afta.
angústia, nó na garganta, medo de andar na rua, ciúme sem cura.
desemprego, medo de levar facada no Aterro, medo de ser estuprada, bala perdida num ônibus.

normal

o presidente da câmara dos deputados tem R$10 milhões não declarados em contas na suíça, diz que não vai falar a respeito, que não renuncia por nada. natural para a maioria da população. em um país de gente esclarecida, já estaria afastado do cargo na primeira suspeita em investigação.

um casal de homens se beija num bar. um cara se acha no direito de dizer que eles não podem fazer aquilo ali. um beijo. uma pessoa que se sente no direito de determinar o que a outra deve fazer ou não em público. e assim, matam, violentam. normal, comum.

a travesti anda na rua e quase todos se sentem no direito de fazer uma piada em voz alta. pessoa-objeto, pessoa-nada. pode violentar.

nas festas, os caras puxam as mulheres pelo braço com violência. mulher-objeto, violência comum, normal.
normal também comer vegetais cheio de agrotóxicos. comer veneno todo dia. pulverizar veneno, envenenar normalmente, comum.

normal trabalhar mais de oito horas por dia e passar quatro horas no trânsito, polícia com fuzil arma de guerra na rua, parar ônibus com gente preta na direção da praia, preto morrer só porque é preto, porque é preto e pobre. natural ouvir música em inglês no rádio, na festa adolescente, mesmo estando no brasil e não entender NADA.

é tudo bem natural, normal, comum.

domingo, 13 de setembro de 2015

Incompleto

Cheio de esboços pela casa, nós, rascunhos. Nós entre nós desatar nós nódulos amarrações. As coisas do meu amor que guardei - nunca joguei fora. Engrenagem incompleta monumento de ferro morto na Ponte Rio-Niterói.
Mariana Aydar, Pedaço Duma Asa sobre Juçara Marçal Metá Metá. Guerreio no lombo do meu cavalo, cigarro de palha, Rio nublado no verão-inverno Instagram fumo sem filtro.
Esboços no Google Drive, no moleskine, nas gavetas. Vinho, queijos, taça sem par e uma garrafa especial que espera deitada, quase um ano.
Máquina de lavar no ciclo infinito, desliguem quando eu morrer, doem meus órgãos joguem as cinzas em qualquer lugar, estejam comigo enquanto vivo, quero chegar aos cem, eu tenho esperança na medicina de ciborgues.
Antes fragmentos prosa antiprosa antiverso, que nada.

domingo, 2 de agosto de 2015

Amiga

Protegendo-se do sol, pálida, sob um guarda-sol inteiramente branco, largo o suficiente para atingir as pessoas ao redor, a Tristeza cruzou a calçada, paciente. Cumprimentou debochadamente os transeuntes, olhou-lhes nos olhos, sorrindo sem mostrar os dentes, como riso fatigado, sem vontade. Parecia cantarolar internamente coisas que não se sabe o quê. Cantava por dentro, sim, prestando um pouco mais de atenção certamente seria possível ouvir versos sem muito sentido, gibberish

Com os braços cansados, apoiou-se nas grades do prédio, mirou o porteiro, praticamente sussurrando o número do apartamento: 808. 

Irina, pouco surpresa, como se já esperasse a visita, autorizou a subida. Josinaldo abriu o portão para aquela jovem senhora, dessas mulheres que poucos se atrevem a adivinhar a idade, tamanho o enigma estampado em seus semblantes, sem rugas, sem marcas no pescoço, mãos que pouco se vê, no alto dos trinta e cinco ou já ultrapassados os cinqüenta. 

Disse que subiria de escada, pois era bom exercitar-se, cultivar o vigor das pernas, para sempre caminhar com passos firmes, embora a maioria visse o contrário. De longe se vê muito o oposto do que realmente as coisas e as pessoas são, pensou consigo ao pisar no primeiro degrau. 

Ao longo dos duzentos e trinta e três passos restantes até o andar de destino, pensou em quanto trabalho teria ao longo da vida, sobre quanto já cumprira de suas missões na Terra, e lembrou de seus esforços, das derrotas, das vitórias, contudo, pouco variando os sentimentos ao resgatar um acontecimento bom ou ruim. 

Entre o sexto e o sétimo andares, autocrítica, riu para si: sou tão constante! E gargalhou, como se estivesse embriagada, a cada segundo rindo cada vez mais da própria risada, a mão no peito, já precisando recuperar o ar, sentindo o diafragma, que há tempos havia esquecido existir. Ah, as boas risadas! E riu por mais um instante, já contida, pronta para caminhar até a porta da amiga (sim, já considerava Irina uma amiga). O que serviria dessa vez? Chá de hortelã? Chá de camolila? Receitas novas de doces da avó?

- Gosto de café com leite com mais leite que café, e pouquíssimo açúcar, o suficiente para não sentir o amargo dos grãos, o bastante para não ficar com o gosto pastoso, mamífero, em minha língua, refletiu. Achava-se a cada dia mais debochada. E orgulhava-se disso. 

Não precisou tocar a campainha. Irina a esperava sentada no sofá de tecido verde-musgo. Os pés tocavam o tapete bege calçando sapatos cor-de-rosa igualmente sem atrativo nenhum, como tudo naquela casa: os móveis, os discos, as plantas, os quadros, a meia-luz, os abajures, suas sobrancelhas, seu chá, sua água, o ar que entrava pelas janelas dando solavancos irritados nas cortinas. Tudo muito besta, desnecessário. 

Conversaram, sem pressa. O café com leite preferido estava impassível. Nem quente, nem frio.

domingo, 26 de julho de 2015

O Ano Sabático do Amor

Imediatamente após o fim, está decretado o ano sabático do amor. Dizem que o luto pode durar doze meses, cada um enfrenta de uma forma, tem gente que se alivia de casamento de dez anos com mais facilidade que namoro de três meses. O tempo subjetivo do nosso relógio interior é indomável, não adianta tentar controlar.

Escola Politécnica. O poliamor chegou como uma chuva dividida em três verões, pra cada pessoa numa intensidade diferente, cada pingo um prazer distinto. Hppn, Tinder, Timber, Par Perfeito, Grindr, Hornet, Brenda, Scruff, Badoo. Conhecer, seduzir, amar, gozar, discutir, odiar, divorciar em menos de 24 horas. Efêmero já é o tempo corrente?

A lua brilhou metálica macia, enternecendo o céu. Os amores chegaram todos de uma vez, ardentes no inverno, em várias gerações, circunscritas ao raio da tecnologia.

X, Y, Z.

Nenhum floco de neve é igual a outro. Alguém um dia parou pra comparar?

hashtag deus

As belezas de cada um, não se pode ter tudo, que memória sobrevive e interessa depois de passada uma borracha consciente/inconsciente sobre as coisas? Os deuses mais lindos são os que não só ensinam, mas também aprendem. Quantos é você?


terça-feira, 23 de junho de 2015

Escreva algo ou Derreter-se em quatro tempos

Amor é coisa que emboba, do verbo embobocer, tornar bobo. O homem que eu chamava de príncipe um dia acordou dizendo “bom dia, melancia”. Derreti.

Veio do outro lado do mundo um espanhol, falando com sotaque coisas como “peice frito”, “vamonos a Paráty”, “estoy boladinho”. Embriagado, mandou áudios no WhatsApp. Ouvi repetidas vezes, até não cansar.

Amigo querido chegou com um cigarro artesanal. “Preparei pra você, tem tabaco, várias ervas diferentes”. Fumo, acompanhando chá de laranja. No canto da cozinha, seus dedos acariciam meus cotovelos. Envergonho, enterneço.

Ao cruzar o Largo da Carioca, avisto um rapaz bonito, alto, barba cerrada, camisa branca. Nossos olhares se cruzam. Nas mãos, um pacote de cervejas. Ele derruba uma sacola que, por reflexo, pego no ar, canhoto. Em câmera lenta, leveza, lhe devolvo. “Obrigado”. Não fosse por isso, talvez nunca ouvisse sua voz. Muitas coisas são da coleção “talvez nunca”. Nunca, extremo, talvez, ponderação.

***

Caminhando em direção ao bar, numa quinta-feira de samba, quis ouvir Nina Simone, The Laziest Gal in Town. Botei os fones e fui.

Certa vez, percorri a Mem de Sá inteira e as músicas de todos os bares transformaram-se numa trilha de video game. Como se meu apartamento estivesse na primeira fase e o Circo Voador o último estágio, percorri a avenida desviando de gente, zonas escuras, sombras perigosas, potenciais inimigos.

Já experimentou sair na rua vestido de seu semblante mais feliz? Incomoda muita gente. Eu, hein.

***

Te vejo, dançamos lado a lado, não trocamos uma palavra.
Nos seus olhos moram buracos negros. At the movies, queria dizer que gostei da sua camisa de orixás. A bruteza das circunstâncias cala a nossa boca. Quero falar e, paralisado, não comunico pra fora, só pra dentro.

Saudades do meu amor.
Você, at the movies.
Você, mergulho.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Alface, tomate


Com minutos contados, você já deu o que tinha que dar. Tento aproveitar o que ainda há em ti com vigor, semblante murcho, ranhuras negras, amanheceu na geladeira. Alface, tomate, cebola, cenoura, pimenta do reino, sal, mostarda com mel. "Comer uma prato bem grande de salada, antes da refeição principal, para levar uma vida muito saudável". Amor, aprendi.

Vinho. Sabor pegado de uma boa taça. Duas, por que não? A garrafa inteira.

Aproveitar ao máximo. Tomate está R$5,99 o quilo na feira. No mercado já chegou a R$7,99. Lembra de uma vez que quase chegou a doze reais? Fomos pegar um avião pra São Paulo levando caquis, a aeromoça fez piada, dizendo que estávamos contrabandeando a iguaria. Com bebida e jazz é bom demais. Jamie Cullum para iniciantes iniciarem, vale Norah Jones, Diana Krall. Eu gosto de Peggy Lee, Duke Ellington. Miles Davis acho um tanto hermético, conversamos pouco.

Nina Simone. Uma vez fiquei triste ao me dar conta de que nunca veria um show seu. Tristeza de verdade. Duvido que possa existir máquina do tempo. Quem sabe, no futuro, experiências sensoriais imersivas complexas, que me façam até acreditar estar em sua presença, mas ainda assim, ficção, simulação. A verdade das coisas, a verdade dos hologramas é uma verdade, inegável. Presença da ausência.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Saudade

Parece dor, mas é amor.
Parece ódio, mas é saudade.
Amor também se disfarça como vontade de esquecer.

Amor tudo atropela.


sábado, 25 de abril de 2015

Fratura

Às 12h, tem início o período de cumprimentos hostis, quando você deseja um bom dia despreocupado para algumas pessoas e corre o risco de receber de volta um severo boa tarde, praticamente um xingamento. "É boa tarde, já estamos depois do meio-dia. Você é burro?", quase consigo ouvir isso, entre as palavras retribuídas.

Tíbia.

Em 1996, um grupo de anatomistas de diversas partes do mundo decidiu mudar o nome do osso perônio para fíbula. Eu ainda era criança, na época, mas acompanhei com estranheza a nova identidade daquela parte da perna. Mais de mil e seiscentas outras partes do corpo também mudariam de nome, para facilitar a identificação por médicos do planeta, mas nunca me desceu a mudança específica do perônio. Certamente, coisa de quem cresceu assistindo à TV Educativa e adorava a dupla de médicos Tíbia e Perônio, do Castelo Rá-Tim-Bum.  Não consigo falar tíbia-fíbula. Não casa.

A tíbia é o nome oficial da canela. Há algum tempo tenho pensado nela. Intriga-me tratar-se de um osso reto, tão liso, tão plano. Tem parte do corpo que a gente só lembra que existe quando mosquito dá picada ou quando dá topada em móvel da casa, quando o Anderson Silva fratura ao vivo na televisão, ou quando jogador de futebol sai da partida direto pro hospital. Mas com a tíbia foi diferente, um dia acordei e resolvi senti-la. Pedi até pra umas pessoas passarem a mão, sério. Já passou a mão, com atenção, na sua tíbia? Não é intrigante?

Trívia.

A trabalho, fui a Xerém. Quase chegando ao destino, o trânsito começou a parar, ficar mais lento, e à frente uma fumaça preta se formar e aumentar. Logo vimos que se tratava de um carro pegando fogo e nosso motorista, sem hesitar, continuou o caminho. A gente banaliza muito as situações de perigo. Esse carro a ponto de explodir e o motorista passando, mesmo assim. Devíamos parar e não passar ao lado. 

No ritmo da falta de medo pleno, saquei o celular do bolso pra fazer umas fotos e logo vimos que mais adiante havia um corpo estirado sobre o chão. Um homem nos seus trinta anos, camisa escura, calça jeans arriada, sugerindo alguém arrastado bruscamente no asfalto, de bruços, a cabeça aberta.

A roda de sangue em volta do crânio me chamou atenção especialmente porque não era vermelha, mas rosada. Disseram depois que era massa encefálica. Rosa-cérebro.

No veículo, silenciamos por um tempo, mas logo voltamos ao assunto de trabalho. E isso me incomodou um tanto, no fim do dia, porque ao chegar ao local de destino trabalhei normalmente como se nada absurdo tivesse acontecido. Nenhum pesadelo de noite. Dia normal.

Com um orgulho egoísta, por sentir-me ainda afetado com a cena uma semana depois, voltei a problematizar com meus botões o porquê de não ter ficado abalado com a cabeça violentamente aberta de um homem no chão. E apenas um motivo me veio à mente: televisão.

Crescemos tão acostumados à violência naturalizada na tela da TV, do cinema, que a cabeça dilacerada de um homem, vista do carro, nada mais era para meu inconsciente condicionado que uma imagem cinematográfica, um flash, um filme, uma ficção a ser esquecida logo mais, suficientemente irreal pra me permitir jantar de noite sem reflexões sentimentais. 

Certa vez, em Belford Roxo, Baixada do Rio de Janeiro, um cara deu um tiro na própria cabeça e ficou agonizando na sala de casa. As pessoas no bairro formavam uma fila pra ir até lá observá-lo do quintal, pela janela. Olhavam, saíam e davam lugar ao próximo. Eu mesmo, entre elas. Devia ter uns treze de idade. Depois de ver o cara afogar-se em sangue voltei pra casa aflito, me senti sujo, tocado de alguma forma por aquele corpo. Entrei no chuveiro, tomei banho como quem se limpa de sujeira grudada na pele. Lavei os chinelos. Nem me lembro como fui parar naquela casa, ao lado de tanta gente, enfileirada para ver o homem, no palco de sua agonia, um teatro de ingresso grátis para o espetáculo da morte banal.

Vísceras.

Às 18h01, mesmo no horário de verão, com o sol radiante, dizem boa noite. Eu prefiro me guiar pelo que vejo no céu. Para evitar que os cumprimentos mais simples percam sua finalidade última, que é a cordialidade, estabeleci minha própria etiqueta da linguagem fática: se dou boa tarde e recebo boa noite, retribuo igual. Se quando chega uma da manhã e desejo boa noite, mas recebo bom dia, retribuo simpaticamente também. Querida pessoa, quero que você tenha um dia bom, independente do que mostram os ponteiros do relógio.

No alto de prédios centenários e pouco conservados da cidade, crescem árvores. As sementes chegam ali pelo bico ou no cocô de passarinhos, depositam-se com o vento. E lá se instalam, crescem alheias a quem passa na rua, vivem suas vidas, quietas. As raízes, lá do topo, escorrem pelas paredes, tentam tocar o chão, buscam os nutrientes da terra.

À beira mar, no topo de edifícios do Rio de Janeiro, é possível encontrar pequenos peixes. Eles caem do bico das gaivotas e ficam ali, completamente deslocados. Se há pouco ainda nadavam na sofrida Baía de Guanabara, em instantes jazem em telhas, sob o sol. Suas peles derretem tendo como testemunha apenas as nuvens, as tripinhas somem rapidamente. Mortos, insignificantes, atirados ao chão, viram poeira.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Supermercado

A caixa do supermercado me pergunta o que é aquilo. Eu respondo: brócolis. Só conheço o que eu como, ela diz. Esse é o R$1,99, eu digo, vai que ela me cobra o americano, que é bem mais caro. Na fila, a moça que devia ter minha idade levava apenas um Doritos e duas Stellas Artois. Ela ri, olhando para o celular. Lindo é gente rindo. Na minha cesta, macarrão, o brócolis e duas garrafinhas de vinho. Que maduro estou, comparando-me com esta moça, penso. E que bobo julgar assim, concluo, logo em seguida. Quem não quer uma horinha junk food? Julgamento é coisa tão cristã. Deixa eu desviar esse comportamento, já.

Outro dia, fiz uma planilha listando os vinhos que comprei ou bebi, e gostei. Estava cansado de esquecer e comprar, de novo, vinho que não tinha gostado. Compartilhei por e-mail com um amigo, que agradeceu, mas respondeu o seguinte: já existe um aplicativo para isso, anotar os vinhos que você gostou e, ainda por cima, classificar. E até lembrei que um cara do trabalho havia me indicado o tal app, mas eu pensava que era só pra descobrir onde vendia vinho barato. Queria eu inventar um aplicativo e ficar bilionário, fazer mais nada da vida.

Fui à Cadeg pela primeira vez e gostei, pois lá encontrei meu azeite preferido. Nunca tinha visto em mercados nas redondezas. Nesse dia, almocei com um casal de amigos, que confundiu a pimenta com azeite. Tadinhos, enquanto eu me deliciava, eles esbaforiam. Nada entendi, até o garçom apontar a diferença entre uma garrafa e outra, que era praticamente nenhuma. Atendimento é tudo de bom, mas o Rio ainda não aprendeu a servir as pessoas.

No Extra, chamaram a polícia pra pegar uma mulher roubando. Ela disse: "Eu roubo aqui há dez anos, não vai ser agora que vão me prender!".

Um brinde ao céu!

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Deserto

Olha a chuva escorrer pela janela,
Parece que agora só quer tomar vinho e comer salada.

Estoy muy relajado é o que eu mais gosto de falar em espanhol.

domingo, 5 de abril de 2015

Télépopmusik

Por onde você anda? Eu queria saber mais da sua vida, como aquela música do Roberto Carlos. Eu vejo pássaros, eu vejo o verde, eu penso em você. Será que você pensa em mim, como naquela música da Nana Caymmi? 

Eu sei que você curte o que eu curto, mas a gente entrou nessa situação louca, de nem se falar direito. Somos quase dois estranhos, depois de tanta intimidade, tanta vivência boa. 

Deixo meu PC no shuffle. Lembra de quando a gente concordava que música aleatória era oráculo? Nunca falamos sobre isso, mas eu sei. 

Dizem que os pássaros que voam na frente são os mais jovens. Protegem os mais velhos, menos resistentes ao vento. Como atletas que correm atrás das primeiras posições, com menos resistência ao ar, e depois, num lance, ganham as rédeas da corrida. A vida é pódio.

Aprendi que o amor é vexame. Pra amar, tem que ser humilde, aceitar fraquezas, contradições. Estou cheio delas. Fico feliz por isso. Quanto mais humano, melhor. 

Olhar de jabuticaba, olhar de buraco negro, olhar de tristeza. Toca Sufjan Stevens. Oráculo fala mesmo com a gente. Faço interpretação errada do conceito, eu sei. É que gosto tanto da palavra. Prefiro continuar usando. A vida é erro também. 

Sinto falta da sua comida, do seu devaneio, da sua cor. Da sua companhia. 

Certo dia, perdi um companheiro.  

Olhaí, meu bem

Meu bem era um cara sem papas na língua. Era admirado por isso, mas um pouco rechaçado também. Eu entendo meu bem (até certo ponto). Eu bebo minha cachaça com a vista pro Cristo Redentor. Gosto, mesmo sendo ateu. Que escultura filha da puta, que prende o olhar da gente. Ter janela pro Cristo, vista pro Cristo. O Cristo tá azul, hoje, cê viu?

Meu bem era um cara foda, com alguns desvios que só o deixavam em desvantagem. Meu bem sabe falar de política, sabe falar de música, sabe falar de arte, mas é um pouco antissocial. Meu bem tinha um cheiro maravilhoso, de homem moreno, eu adorava certas perspectivas de meu bem, nunca ousei tentar aquelas posições com outros homens. Só meu bem valia a pena. Até hoje, só meu bem valeria.

Meu bem entendeu tudo errado. Você entendeu tudo errado, cara.

Caraminhola.

"Morrer de viver"

Eram dois filhotinhos da mesma ninhada, mas o estilo de vida dos donos definiu o comportamento de cada cão, macho e fêmea. Lá em Santa Teresa, uma casa tem grafada no muro a seguinte frase: Os cães são o reflexo dos donos. Passeando pela Lagoa, deparamo-nos com um senhor, carregando um pitbull assustador. Desnecessário andar com um animal desses assim, sem focinheira, apavorando as pessoas, pensei. 

O macho é uma espoleta, destroi tudo o que vê pela frente. Todas as meias do meu amigo ficaram com alguma sequela, depois de passarem por aquela casa. Eu acho graça. A fêmea é uma querida, educada. Diz até que bate a patinha na porta, pra comunicar que ouviu seu nome ser chamado. 

Fato é que ambas as donas dão um comprimidinho de Dramin, quando é preciso que os cães fiquem quietos. Acho questionável. 

***

Ludmilla fez um CD muito bom. Tem até participação do Belo, certo que é estratégia da gravadora, pra marcar bem um público alvo. As produtoras sabem bem (nem sempre) em quem investir, e no caso dessa moça, deu super certo. Pop bom, raiz do funk preservada... Tem que manter mesmo o batidão, porque a sedução do funk está lá, no pancadão. Só não gosto de incitação à briga. Falar que vai meter a porrada na amante do cara é tão bobo. Funk pode ser algo melhor. É como as músicas sobre novinhas. Perigoso isso. Essa sexualização da menor de idade não tem que ser levada adiante. Responsabilidade. 

***

Parei de falar sobre coisa séria, nas redes sociais. Ou melhor, falo bem pouco. Ficar discutindo pelo teclado é deveras cansativo. Eu mal tenho tempo pra falar amenidades, quiçá discutir pelo Facebook. 

Os fins de semana são cada vez mais preciosos. Tempo, essa commodity atemporal. 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

sem poesia

Amor nobre, emperra o que vem depois.
Tem vez que a gente sabe,
no meio dos amores, existe O amor.

Aquele que a tudo abala.
Saudades do meu amor.
Aquele que a tudo abala.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Dois mil e kiss me

Pois que o ano foi começando e fui logo avisando: 2015 não será fácil, amigos. Então, fazendo como aqueles evangélicos que dizem profetizar coisas, saí espalhando a minha visão. Dois mil e kiss me será um ano difícil, espinhoso, cheio de obstáculos, emaranhados pra te prender. Você precisará de paciência, respirações profundas, calma. O verão chegará queimando a pele, o sol acordará incomodando os olhos. Serão difíceis as mínimas coisas, como ir à padaria comprar pão. No caminho, pessoas irritadas, no balcão, atendentes indispostas, no caixa, a mulher sem troco, pois faltam moedas na praça. Será difícil ir ao mercado, pegar ônibus, tomar um táxi, até beber cerveja na calçada vai encontrar seu respectivo aspecto indigesto. Você sentirá nojo dos políticos, a mídia ficará atravessada na garganta, a rua será um lugar ameaçador.

Mas poderá até ser um ano bom.