segunda-feira, 27 de abril de 2015

Saudade

Parece dor, mas é amor.
Parece ódio, mas é saudade.
Amor também se disfarça como vontade de esquecer.

Amor tudo atropela.


sábado, 25 de abril de 2015

Fratura

Às 12h, tem início o período de cumprimentos hostis, quando você deseja um bom dia despreocupado para algumas pessoas e corre o risco de receber de volta um severo boa tarde, praticamente um xingamento. "É boa tarde, já estamos depois do meio-dia. Você é burro?", quase consigo ouvir isso, entre as palavras retribuídas.

Tíbia.

Em 1996, um grupo de anatomistas de diversas partes do mundo decidiu mudar o nome do osso perônio para fíbula. Eu ainda era criança, na época, mas acompanhei com estranheza a nova identidade daquela parte da perna. Mais de mil e seiscentas outras partes do corpo também mudariam de nome, para facilitar a identificação por médicos do planeta, mas nunca me desceu a mudança específica do perônio. Certamente, coisa de quem cresceu assistindo à TV Educativa e adorava a dupla de médicos Tíbia e Perônio, do Castelo Rá-Tim-Bum.  Não consigo falar tíbia-fíbula. Não casa.

A tíbia é o nome oficial da canela. Há algum tempo tenho pensado nela. Intriga-me tratar-se de um osso reto, tão liso, tão plano. Tem parte do corpo que a gente só lembra que existe quando mosquito dá picada ou quando dá topada em móvel da casa, quando o Anderson Silva fratura ao vivo na televisão, ou quando jogador de futebol sai da partida direto pro hospital. Mas com a tíbia foi diferente, um dia acordei e resolvi senti-la. Pedi até pra umas pessoas passarem a mão, sério. Já passou a mão, com atenção, na sua tíbia? Não é intrigante?

Trívia.

A trabalho, fui a Xerém. Quase chegando ao destino, o trânsito começou a parar, ficar mais lento, e à frente uma fumaça preta se formar e aumentar. Logo vimos que se tratava de um carro pegando fogo e nosso motorista, sem hesitar, continuou o caminho. A gente banaliza muito as situações de perigo. Esse carro a ponto de explodir e o motorista passando, mesmo assim. Devíamos parar e não passar ao lado. 

No ritmo da falta de medo pleno, saquei o celular do bolso pra fazer umas fotos e logo vimos que mais adiante havia um corpo estirado sobre o chão. Um homem nos seus trinta anos, camisa escura, calça jeans arriada, sugerindo alguém arrastado bruscamente no asfalto, de bruços, a cabeça aberta.

A roda de sangue em volta do crânio me chamou atenção especialmente porque não era vermelha, mas rosada. Disseram depois que era massa encefálica. Rosa-cérebro.

No veículo, silenciamos por um tempo, mas logo voltamos ao assunto de trabalho. E isso me incomodou um tanto, no fim do dia, porque ao chegar ao local de destino trabalhei normalmente como se nada absurdo tivesse acontecido. Nenhum pesadelo de noite. Dia normal.

Com um orgulho egoísta, por sentir-me ainda afetado com a cena uma semana depois, voltei a problematizar com meus botões o porquê de não ter ficado abalado com a cabeça violentamente aberta de um homem no chão. E apenas um motivo me veio à mente: televisão.

Crescemos tão acostumados à violência naturalizada na tela da TV, do cinema, que a cabeça dilacerada de um homem, vista do carro, nada mais era para meu inconsciente condicionado que uma imagem cinematográfica, um flash, um filme, uma ficção a ser esquecida logo mais, suficientemente irreal pra me permitir jantar de noite sem reflexões sentimentais. 

Certa vez, em Belford Roxo, Baixada do Rio de Janeiro, um cara deu um tiro na própria cabeça e ficou agonizando na sala de casa. As pessoas no bairro formavam uma fila pra ir até lá observá-lo do quintal, pela janela. Olhavam, saíam e davam lugar ao próximo. Eu mesmo, entre elas. Devia ter uns treze de idade. Depois de ver o cara afogar-se em sangue voltei pra casa aflito, me senti sujo, tocado de alguma forma por aquele corpo. Entrei no chuveiro, tomei banho como quem se limpa de sujeira grudada na pele. Lavei os chinelos. Nem me lembro como fui parar naquela casa, ao lado de tanta gente, enfileirada para ver o homem, no palco de sua agonia, um teatro de ingresso grátis para o espetáculo da morte banal.

Vísceras.

Às 18h01, mesmo no horário de verão, com o sol radiante, dizem boa noite. Eu prefiro me guiar pelo que vejo no céu. Para evitar que os cumprimentos mais simples percam sua finalidade última, que é a cordialidade, estabeleci minha própria etiqueta da linguagem fática: se dou boa tarde e recebo boa noite, retribuo igual. Se quando chega uma da manhã e desejo boa noite, mas recebo bom dia, retribuo simpaticamente também. Querida pessoa, quero que você tenha um dia bom, independente do que mostram os ponteiros do relógio.

No alto de prédios centenários e pouco conservados da cidade, crescem árvores. As sementes chegam ali pelo bico ou no cocô de passarinhos, depositam-se com o vento. E lá se instalam, crescem alheias a quem passa na rua, vivem suas vidas, quietas. As raízes, lá do topo, escorrem pelas paredes, tentam tocar o chão, buscam os nutrientes da terra.

À beira mar, no topo de edifícios do Rio de Janeiro, é possível encontrar pequenos peixes. Eles caem do bico das gaivotas e ficam ali, completamente deslocados. Se há pouco ainda nadavam na sofrida Baía de Guanabara, em instantes jazem em telhas, sob o sol. Suas peles derretem tendo como testemunha apenas as nuvens, as tripinhas somem rapidamente. Mortos, insignificantes, atirados ao chão, viram poeira.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Supermercado

A caixa do supermercado me pergunta o que é aquilo. Eu respondo: brócolis. Só conheço o que eu como, ela diz. Esse é o R$1,99, eu digo, vai que ela me cobra o americano, que é bem mais caro. Na fila, a moça que devia ter minha idade levava apenas um Doritos e duas Stellas Artois. Ela ri, olhando para o celular. Lindo é gente rindo. Na minha cesta, macarrão, o brócolis e duas garrafinhas de vinho. Que maduro estou, comparando-me com esta moça, penso. E que bobo julgar assim, concluo, logo em seguida. Quem não quer uma horinha junk food? Julgamento é coisa tão cristã. Deixa eu desviar esse comportamento, já.

Outro dia, fiz uma planilha listando os vinhos que comprei ou bebi, e gostei. Estava cansado de esquecer e comprar, de novo, vinho que não tinha gostado. Compartilhei por e-mail com um amigo, que agradeceu, mas respondeu o seguinte: já existe um aplicativo para isso, anotar os vinhos que você gostou e, ainda por cima, classificar. E até lembrei que um cara do trabalho havia me indicado o tal app, mas eu pensava que era só pra descobrir onde vendia vinho barato. Queria eu inventar um aplicativo e ficar bilionário, fazer mais nada da vida.

Fui à Cadeg pela primeira vez e gostei, pois lá encontrei meu azeite preferido. Nunca tinha visto em mercados nas redondezas. Nesse dia, almocei com um casal de amigos, que confundiu a pimenta com azeite. Tadinhos, enquanto eu me deliciava, eles esbaforiam. Nada entendi, até o garçom apontar a diferença entre uma garrafa e outra, que era praticamente nenhuma. Atendimento é tudo de bom, mas o Rio ainda não aprendeu a servir as pessoas.

No Extra, chamaram a polícia pra pegar uma mulher roubando. Ela disse: "Eu roubo aqui há dez anos, não vai ser agora que vão me prender!".

Um brinde ao céu!

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Deserto

Olha a chuva escorrer pela janela,
Parece que agora só quer tomar vinho e comer salada.

Estoy muy relajado é o que eu mais gosto de falar em espanhol.

domingo, 5 de abril de 2015

Télépopmusik

Por onde você anda? Eu queria saber mais da sua vida, como aquela música do Roberto Carlos. Eu vejo pássaros, eu vejo o verde, eu penso em você. Será que você pensa em mim, como naquela música da Nana Caymmi? 

Eu sei que você curte o que eu curto, mas a gente entrou nessa situação louca, de nem se falar direito. Somos quase dois estranhos, depois de tanta intimidade, tanta vivência boa. 

Deixo meu PC no shuffle. Lembra de quando a gente concordava que música aleatória era oráculo? Nunca falamos sobre isso, mas eu sei. 

Dizem que os pássaros que voam na frente são os mais jovens. Protegem os mais velhos, menos resistentes ao vento. Como atletas que correm atrás das primeiras posições, com menos resistência ao ar, e depois, num lance, ganham as rédeas da corrida. A vida é pódio.

Aprendi que o amor é vexame. Pra amar, tem que ser humilde, aceitar fraquezas, contradições. Estou cheio delas. Fico feliz por isso. Quanto mais humano, melhor. 

Olhar de jabuticaba, olhar de buraco negro, olhar de tristeza. Toca Sufjan Stevens. Oráculo fala mesmo com a gente. Faço interpretação errada do conceito, eu sei. É que gosto tanto da palavra. Prefiro continuar usando. A vida é erro também. 

Sinto falta da sua comida, do seu devaneio, da sua cor. Da sua companhia. 

Certo dia, perdi um companheiro.  

Olhaí, meu bem

Meu bem era um cara sem papas na língua. Era admirado por isso, mas um pouco rechaçado também. Eu entendo meu bem (até certo ponto). Eu bebo minha cachaça com a vista pro Cristo Redentor. Gosto, mesmo sendo ateu. Que escultura filha da puta, que prende o olhar da gente. Ter janela pro Cristo, vista pro Cristo. O Cristo tá azul, hoje, cê viu?

Meu bem era um cara foda, com alguns desvios que só o deixavam em desvantagem. Meu bem sabe falar de política, sabe falar de música, sabe falar de arte, mas é um pouco antissocial. Meu bem tinha um cheiro maravilhoso, de homem moreno, eu adorava certas perspectivas de meu bem, nunca ousei tentar aquelas posições com outros homens. Só meu bem valia a pena. Até hoje, só meu bem valeria.

Meu bem entendeu tudo errado. Você entendeu tudo errado, cara.

Caraminhola.

"Morrer de viver"

Eram dois filhotinhos da mesma ninhada, mas o estilo de vida dos donos definiu o comportamento de cada cão, macho e fêmea. Lá em Santa Teresa, uma casa tem grafada no muro a seguinte frase: Os cães são o reflexo dos donos. Passeando pela Lagoa, deparamo-nos com um senhor, carregando um pitbull assustador. Desnecessário andar com um animal desses assim, sem focinheira, apavorando as pessoas, pensei. 

O macho é uma espoleta, destroi tudo o que vê pela frente. Todas as meias do meu amigo ficaram com alguma sequela, depois de passarem por aquela casa. Eu acho graça. A fêmea é uma querida, educada. Diz até que bate a patinha na porta, pra comunicar que ouviu seu nome ser chamado. 

Fato é que ambas as donas dão um comprimidinho de Dramin, quando é preciso que os cães fiquem quietos. Acho questionável. 

***

Ludmilla fez um CD muito bom. Tem até participação do Belo, certo que é estratégia da gravadora, pra marcar bem um público alvo. As produtoras sabem bem (nem sempre) em quem investir, e no caso dessa moça, deu super certo. Pop bom, raiz do funk preservada... Tem que manter mesmo o batidão, porque a sedução do funk está lá, no pancadão. Só não gosto de incitação à briga. Falar que vai meter a porrada na amante do cara é tão bobo. Funk pode ser algo melhor. É como as músicas sobre novinhas. Perigoso isso. Essa sexualização da menor de idade não tem que ser levada adiante. Responsabilidade. 

***

Parei de falar sobre coisa séria, nas redes sociais. Ou melhor, falo bem pouco. Ficar discutindo pelo teclado é deveras cansativo. Eu mal tenho tempo pra falar amenidades, quiçá discutir pelo Facebook. 

Os fins de semana são cada vez mais preciosos. Tempo, essa commodity atemporal. 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

sem poesia

Amor nobre, emperra o que vem depois.
Tem vez que a gente sabe,
no meio dos amores, existe O amor.

Aquele que a tudo abala.
Saudades do meu amor.
Aquele que a tudo abala.