sábado, 25 de abril de 2015

Fratura

Às 12h, tem início o período de cumprimentos hostis, quando você deseja um bom dia despreocupado para algumas pessoas e corre o risco de receber de volta um severo boa tarde, praticamente um xingamento. "É boa tarde, já estamos depois do meio-dia. Você é burro?", quase consigo ouvir isso, entre as palavras retribuídas.

Tíbia.

Em 1996, um grupo de anatomistas de diversas partes do mundo decidiu mudar o nome do osso perônio para fíbula. Eu ainda era criança, na época, mas acompanhei com estranheza a nova identidade daquela parte da perna. Mais de mil e seiscentas outras partes do corpo também mudariam de nome, para facilitar a identificação por médicos do planeta, mas nunca me desceu a mudança específica do perônio. Certamente, coisa de quem cresceu assistindo à TV Educativa e adorava a dupla de médicos Tíbia e Perônio, do Castelo Rá-Tim-Bum.  Não consigo falar tíbia-fíbula. Não casa.

A tíbia é o nome oficial da canela. Há algum tempo tenho pensado nela. Intriga-me tratar-se de um osso reto, tão liso, tão plano. Tem parte do corpo que a gente só lembra que existe quando mosquito dá picada ou quando dá topada em móvel da casa, quando o Anderson Silva fratura ao vivo na televisão, ou quando jogador de futebol sai da partida direto pro hospital. Mas com a tíbia foi diferente, um dia acordei e resolvi senti-la. Pedi até pra umas pessoas passarem a mão, sério. Já passou a mão, com atenção, na sua tíbia? Não é intrigante?

Trívia.

A trabalho, fui a Xerém. Quase chegando ao destino, o trânsito começou a parar, ficar mais lento, e à frente uma fumaça preta se formar e aumentar. Logo vimos que se tratava de um carro pegando fogo e nosso motorista, sem hesitar, continuou o caminho. A gente banaliza muito as situações de perigo. Esse carro a ponto de explodir e o motorista passando, mesmo assim. Devíamos parar e não passar ao lado. 

No ritmo da falta de medo pleno, saquei o celular do bolso pra fazer umas fotos e logo vimos que mais adiante havia um corpo estirado sobre o chão. Um homem nos seus trinta anos, camisa escura, calça jeans arriada, sugerindo alguém arrastado bruscamente no asfalto, de bruços, a cabeça aberta.

A roda de sangue em volta do crânio me chamou atenção especialmente porque não era vermelha, mas rosada. Disseram depois que era massa encefálica. Rosa-cérebro.

No veículo, silenciamos por um tempo, mas logo voltamos ao assunto de trabalho. E isso me incomodou um tanto, no fim do dia, porque ao chegar ao local de destino trabalhei normalmente como se nada absurdo tivesse acontecido. Nenhum pesadelo de noite. Dia normal.

Com um orgulho egoísta, por sentir-me ainda afetado com a cena uma semana depois, voltei a problematizar com meus botões o porquê de não ter ficado abalado com a cabeça violentamente aberta de um homem no chão. E apenas um motivo me veio à mente: televisão.

Crescemos tão acostumados à violência naturalizada na tela da TV, do cinema, que a cabeça dilacerada de um homem, vista do carro, nada mais era para meu inconsciente condicionado que uma imagem cinematográfica, um flash, um filme, uma ficção a ser esquecida logo mais, suficientemente irreal pra me permitir jantar de noite sem reflexões sentimentais. 

Certa vez, em Belford Roxo, Baixada do Rio de Janeiro, um cara deu um tiro na própria cabeça e ficou agonizando na sala de casa. As pessoas no bairro formavam uma fila pra ir até lá observá-lo do quintal, pela janela. Olhavam, saíam e davam lugar ao próximo. Eu mesmo, entre elas. Devia ter uns treze de idade. Depois de ver o cara afogar-se em sangue voltei pra casa aflito, me senti sujo, tocado de alguma forma por aquele corpo. Entrei no chuveiro, tomei banho como quem se limpa de sujeira grudada na pele. Lavei os chinelos. Nem me lembro como fui parar naquela casa, ao lado de tanta gente, enfileirada para ver o homem, no palco de sua agonia, um teatro de ingresso grátis para o espetáculo da morte banal.

Vísceras.

Às 18h01, mesmo no horário de verão, com o sol radiante, dizem boa noite. Eu prefiro me guiar pelo que vejo no céu. Para evitar que os cumprimentos mais simples percam sua finalidade última, que é a cordialidade, estabeleci minha própria etiqueta da linguagem fática: se dou boa tarde e recebo boa noite, retribuo igual. Se quando chega uma da manhã e desejo boa noite, mas recebo bom dia, retribuo simpaticamente também. Querida pessoa, quero que você tenha um dia bom, independente do que mostram os ponteiros do relógio.

No alto de prédios centenários e pouco conservados da cidade, crescem árvores. As sementes chegam ali pelo bico ou no cocô de passarinhos, depositam-se com o vento. E lá se instalam, crescem alheias a quem passa na rua, vivem suas vidas, quietas. As raízes, lá do topo, escorrem pelas paredes, tentam tocar o chão, buscam os nutrientes da terra.

À beira mar, no topo de edifícios do Rio de Janeiro, é possível encontrar pequenos peixes. Eles caem do bico das gaivotas e ficam ali, completamente deslocados. Se há pouco ainda nadavam na sofrida Baía de Guanabara, em instantes jazem em telhas, sob o sol. Suas peles derretem tendo como testemunha apenas as nuvens, as tripinhas somem rapidamente. Mortos, insignificantes, atirados ao chão, viram poeira.

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