terça-feira, 23 de junho de 2015

Escreva algo ou Derreter-se em quatro tempos

Amor é coisa que emboba, do verbo embobocer, tornar bobo. O homem que eu chamava de príncipe um dia acordou dizendo “bom dia, melancia”. Derreti.

Veio do outro lado do mundo um espanhol, falando com sotaque coisas como “peice frito”, “vamonos a Paráty”, “estoy boladinho”. Embriagado, mandou áudios no WhatsApp. Ouvi repetidas vezes, até não cansar.

Amigo querido chegou com um cigarro artesanal. “Preparei pra você, tem tabaco, várias ervas diferentes”. Fumo, acompanhando chá de laranja. No canto da cozinha, seus dedos acariciam meus cotovelos. Envergonho, enterneço.

Ao cruzar o Largo da Carioca, avisto um rapaz bonito, alto, barba cerrada, camisa branca. Nossos olhares se cruzam. Nas mãos, um pacote de cervejas. Ele derruba uma sacola que, por reflexo, pego no ar, canhoto. Em câmera lenta, leveza, lhe devolvo. “Obrigado”. Não fosse por isso, talvez nunca ouvisse sua voz. Muitas coisas são da coleção “talvez nunca”. Nunca, extremo, talvez, ponderação.

***

Caminhando em direção ao bar, numa quinta-feira de samba, quis ouvir Nina Simone, The Laziest Gal in Town. Botei os fones e fui.

Certa vez, percorri a Mem de Sá inteira e as músicas de todos os bares transformaram-se numa trilha de video game. Como se meu apartamento estivesse na primeira fase e o Circo Voador o último estágio, percorri a avenida desviando de gente, zonas escuras, sombras perigosas, potenciais inimigos.

Já experimentou sair na rua vestido de seu semblante mais feliz? Incomoda muita gente. Eu, hein.

***

Te vejo, dançamos lado a lado, não trocamos uma palavra.
Nos seus olhos moram buracos negros. At the movies, queria dizer que gostei da sua camisa de orixás. A bruteza das circunstâncias cala a nossa boca. Quero falar e, paralisado, não comunico pra fora, só pra dentro.

Saudades do meu amor.
Você, at the movies.
Você, mergulho.

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