domingo, 2 de agosto de 2015

Amiga

Protegendo-se do sol, pálida, sob um guarda-sol inteiramente branco, largo o suficiente para atingir as pessoas ao redor, a Tristeza cruzou a calçada, paciente. Cumprimentou debochadamente os transeuntes, olhou-lhes nos olhos, sorrindo sem mostrar os dentes, como riso fatigado, sem vontade. Parecia cantarolar internamente coisas que não se sabe o quê. Cantava por dentro, sim, prestando um pouco mais de atenção certamente seria possível ouvir versos sem muito sentido, gibberish

Com os braços cansados, apoiou-se nas grades do prédio, mirou o porteiro, praticamente sussurrando o número do apartamento: 808. 

Irina, pouco surpresa, como se já esperasse a visita, autorizou a subida. Josinaldo abriu o portão para aquela jovem senhora, dessas mulheres que poucos se atrevem a adivinhar a idade, tamanho o enigma estampado em seus semblantes, sem rugas, sem marcas no pescoço, mãos que pouco se vê, no alto dos trinta e cinco ou já ultrapassados os cinqüenta. 

Disse que subiria de escada, pois era bom exercitar-se, cultivar o vigor das pernas, para sempre caminhar com passos firmes, embora a maioria visse o contrário. De longe se vê muito o oposto do que realmente as coisas e as pessoas são, pensou consigo ao pisar no primeiro degrau. 

Ao longo dos duzentos e trinta e três passos restantes até o andar de destino, pensou em quanto trabalho teria ao longo da vida, sobre quanto já cumprira de suas missões na Terra, e lembrou de seus esforços, das derrotas, das vitórias, contudo, pouco variando os sentimentos ao resgatar um acontecimento bom ou ruim. 

Entre o sexto e o sétimo andares, autocrítica, riu para si: sou tão constante! E gargalhou, como se estivesse embriagada, a cada segundo rindo cada vez mais da própria risada, a mão no peito, já precisando recuperar o ar, sentindo o diafragma, que há tempos havia esquecido existir. Ah, as boas risadas! E riu por mais um instante, já contida, pronta para caminhar até a porta da amiga (sim, já considerava Irina uma amiga). O que serviria dessa vez? Chá de hortelã? Chá de camolila? Receitas novas de doces da avó?

- Gosto de café com leite com mais leite que café, e pouquíssimo açúcar, o suficiente para não sentir o amargo dos grãos, o bastante para não ficar com o gosto pastoso, mamífero, em minha língua, refletiu. Achava-se a cada dia mais debochada. E orgulhava-se disso. 

Não precisou tocar a campainha. Irina a esperava sentada no sofá de tecido verde-musgo. Os pés tocavam o tapete bege calçando sapatos cor-de-rosa igualmente sem atrativo nenhum, como tudo naquela casa: os móveis, os discos, as plantas, os quadros, a meia-luz, os abajures, suas sobrancelhas, seu chá, sua água, o ar que entrava pelas janelas dando solavancos irritados nas cortinas. Tudo muito besta, desnecessário. 

Conversaram, sem pressa. O café com leite preferido estava impassível. Nem quente, nem frio.

Nenhum comentário: