quarta-feira, 14 de outubro de 2015

touro

até os 27, mais ou menos, eu não conseguia usar nada vermelho. até os 27, mais ou menos, eu me considerava um cara racional pra caramba, porque na verdade eu me comportava, em linhas gerais, bem racionalmente mesmo

teve esse dia em que chegou uma paixão avassaladora. feito tsunami arrastou tudo, razão, cálculo, matemática, quadrados, retas, réguas, arestas, geometrias, matrizes, organogramas. sobrei eu no meio das roupas pra passar, no meio das roupas pra lavar, sentado no chão, pensando na vida

acho lindo demais paixão. fraqueza expõe a gente, humana. arrepio de relar um joelho no outro, pegar na mão, beijar no rosto quase a boca, sentir o cheiro, sentir o perfume na peça de roupa esquecida em casa

aos poucos, depois de tanto sangue quente nas veias e nos olhos, passei a usar o vermelho na parede, no pé, uma camisa, um abajur. quente, um quadro que compramos na Argentina, um quadro que pintei

***

precisava chegar em tua casa e a forma mais rápida era virar pássaro. negro, deixei criar asas que me eram pesadas, mesmo sustentando ossos pneumáticos. respirei fundo, tomei fôlego, deveria cruzar o mar. assim, inexperiente, senti-me amedrontado, mas chegar do outro lado era maior que todas as coisas. tomei impulso, flexionei as pernas, abri os novos braços e planei. linda liberdade de estar no céu. rodopiar, voando. voar.

sentindo o vento, cheguei à tua porta. em tua casa repousei em lençóis limpos e cama macia.

***
cisco no olho, pedra no sapato, afta.
angústia, nó na garganta, medo de andar na rua, ciúme sem cura.
desemprego, medo de levar facada no Aterro, medo de ser estuprada, bala perdida num ônibus.

normal

o presidente da câmara dos deputados tem R$10 milhões não declarados em contas na suíça, diz que não vai falar a respeito, que não renuncia por nada. natural para a maioria da população. em um país de gente esclarecida, já estaria afastado do cargo na primeira suspeita em investigação.

um casal de homens se beija num bar. um cara se acha no direito de dizer que eles não podem fazer aquilo ali. um beijo. uma pessoa que se sente no direito de determinar o que a outra deve fazer ou não em público. e assim, matam, violentam. normal, comum.

a travesti anda na rua e quase todos se sentem no direito de fazer uma piada em voz alta. pessoa-objeto, pessoa-nada. pode violentar.

nas festas, os caras puxam as mulheres pelo braço com violência. mulher-objeto, violência comum, normal.
normal também comer vegetais cheio de agrotóxicos. comer veneno todo dia. pulverizar veneno, envenenar normalmente, comum.

normal trabalhar mais de oito horas por dia e passar quatro horas no trânsito, polícia com fuzil arma de guerra na rua, parar ônibus com gente preta na direção da praia, preto morrer só porque é preto, porque é preto e pobre. natural ouvir música em inglês no rádio, na festa adolescente, mesmo estando no brasil e não entender NADA.

é tudo bem natural, normal, comum.