terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Espírito de natal

Na tarde de 25 de dezembro, pego uma van Central x Baixada. Num dos primeiros pontos, um cara prefere não entrar no carro. “Me achou bonito ele. Se subisse ia querer me dar mole, então melhor ficar lá mesmo”, diz o cobrador. Ele e o motorista põem-se a zombar, então, dos “boiolas” e do desejo gay. Risos em algumas pessoas, outras pouco dando atenção. Ao meu lado, uma mulher ao celular diz para a amiga que o pastor da igreja dela não bebe e por isso nenhum fiel deve beber também. “Somos as ovelhas dele”, afirma.

Pouco depois, Avenida Brasil, a van chama passageiros, o motorista pede água a uma vendedora. Ela é uma mulher “masculinizada”, serve o cara com educação, até que ele fala sobre uma característica do cobrador. “Dá uma água aqui pra ele também, mas ele é paraíba, hein!”. “Ah, paraíba eu não sirvo não, não gosto dessa raça”, ela “brinca”, servindo a água. O carro parte e o cobrador diz: “Ela que venha de brincadeira, que meto uma bala na cara da mulher dela!”. Eles zombam do desejo lésbico e seguem a viagem.

Mais à frente, entram três caras e um deles diz que se sente enganado, pois diziam que tinha lugar na van, mas agora teriam que ir em pé. O passageiro diz que está com vontade mesmo de matar alguém naquele dia, no que o cobrador responde que está sentindo o mesmo. “Mas você é matador mesmo?”, pergunta o passageiro, rindo. Eles riem, se entendendo, mas mesmo assim o cobrador se certifica que, ao final, deve selar a paz: “Hoje é dia de festa, todo mundo querendo ficar numa boa, então vamos evitar briga”. Todos concordam, a viagem segue sem violência (física).

Há algumas semanas, numa loja de revelação fotográfica, o vendedor perguntou a uma cliente se ela era nordestina. A mulher, ofendida e revoltadíssima, só faltou quebrar o vidro do balcão.

Assim, segue comumente um cotidiano de naturalização da violência. Contra gays, lésbicas, paraíbas, contra a diversidade, uns contra os outros. Violência cíclica.

O vendedor Luís Carlos Ruas foi assassinado na estação Pedro II do metrô de São Paulo, depois de defender uma travesti. Foi morto a chutes e socos. Nas mãos assassinas, soco-inglês como forma de potencializar a vontade de matar. Para evitar o pior, nenhum segurança. Mas basta aparecer um jovem com skate em punho, ou uma manifestação política de esquerda acontecer nos arredores, que eles brotam aos montes, empunhando cassetetes, golpeando a esmo, nos moldes do que faz a polícia.

Os diálogos na van, na loja e no metrô têm algo em comum: a vontade de matar.

Incomodadas, muitas pessoas encontram na piada, no desprezo, ou no esconjuro, formas de afastar as figuras consideras diferentes demais, incômodas, pecadoras. São formas menos diretas de manifestar uma vontade de matar, mas ainda assim são meios de exterminar o que é diferente. Deve dar menos culpa, ou nenhuma.

Um colega postou no Facebook: “Mulher que raspa o cabelo faz isso por quê?”. Por que o questionamento?

Há poucos dias, no Largo do Machado, umas sete da manhã, uma senhora presenciou um beijo gay e disse o seguinte: “Sangue de Jesus tem poder”. Deve ter se sentindo mal, tamanha a repulsa cultivada.

Para outros, o desejo de matar é mais concreto: basta xingar na rua, espancar, meter uma bala na cara.

Poucas horas antes da ceia do último natal, as ruas estavam absolutamente vazias em diversos cantos do país. No Rio, passei pela Urca, Laranjeiras, Centro, Tijuca, quase ninguém na rua. Até os mendigos, reunidos em algum lugar de compaixão momentânea. Muitas famílias reunidas para celebrar alguma coisa.

Jesus Cristo é um puta conceito, me coloco a pensar. Imagina o quanto de pós-verdade não rolou em cima do cara até chegar nas famílias comendo rabanada, com as casas terrivelmente enfeitadas de neve em país tropical com sensação térmica de 50 graus, assistindo Rede Globo?

Eu não acredito em deus, mas até acredito que Jesus existiu. Mas, olha, se ele pregou algum amor pra galera botar em prática, não deu certo.

terça-feira, 12 de julho de 2016

faz calor em pleno inverno no rio de janeiro, é assim mesmo, mas reclamar é essencial pra passar a vida

tesão, às vezes, se perde de repente. tipo o pau sobe hoje, amanhã sente até asco. ser humano é assim.

o parque de diversões perto de casa tinha um brinquedo novo, tipo aquelas barcas, mas as pessoas ficavam içadas por uma máquina doida, todo mundo dentro de um saco, que balançava no ar. vovó foi até a varanda pra ver. Juliano postou no snap a interação entre a velha e o parque. avó intrigada. o parapeito estava perigoso, já tinham falado outro dia. mas esqueceram. grade meio solta. vovó apoiou e o que tinham especulado um dia aconteceu. grade rompida. ela se espatifou lá embaixo, entre o estacionamento e o playground do prédio. Juliano correu pros pais na cozinha, mas não conseguiu falar nada. sentiu um calafrio imenso no corpo inteiro, o coração disparou como se fosse romper o peito.

peça de teatro. não gravei fala nenhuma, deixei pra estudar tudo na hora, encenar os textos no palco depois de uma leitura breve das falas, dos diálogos. pegaria a ideia de cada frase, o resto, se não lembrasse, falaria com meu corpo, minhas palavras, meu improviso. karina buhr

Kauã é um menino da Vila do João que roubou um livro pensando que era celular. Vida desgraçada. Meter a mão pela janela do ônibus e agarrar o que puder. jogou o livro fora. Letícia, livro roubado, não conseguiu acreditar naquilo. Sentiu raiva e chorou até o fim da viagem. Roubarem um livro assim. Vida desgraçada.

A modalidade em ascensão no Rio de Janeiro é roubo de ônibus. Ladrões entram armados e roubam quem conseguem. Por alguns momentos, é sequestro mesmo. Impedem o motorista de parar nos pontos e só descem depois de satisfeitos. Vida desgraçada. Falta tudo em serviço público. Limpeza na Uerj, pagamento pra funcionário público de toda espécie, professor, insumos no IML. Mas para as olimpíadas tem milhões. A cidade, na verdade, não serve nem pra turista. Porque eles são esfaqueados perto do Largo de São Francisco, na Praça Paris, têm que pular esgoto, dar de cara com ladrão disfarçado de taxista.

O Rio de Janeiro, o Brasil é dos empresários. Das construtoras. O concreto manda na política. Constrói aí um teleférico, uma estrada inútil, uma ponte pra passar o BRT que vai pro aeroporto. Manda porcentagem pra político, se nóis for preso, depois é solto. Diz que falta tornozeleira eletrônica, que o resto a lei favorece, porque todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros.

Vida desgraçada. É golpe.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

a espuma dos dias

apesar de gostar de Michel Gondry, Romain Duris e Audrey Tautou, não gostei de a espuma dos dias. mas é como ter amigos e não aprovar tudo o que fazem. pessoas queridas também te enchem a paciência, como pais, irmãos, a gente mesma, pessoas.

nunca fiz terapia, mas tenho vontade. aí fico trabalhando a ideia, fazendo autoterapia antes de escolher fazer as sessões. sabe dona de casa que espera a faxineira pra fazer o serviço, mas antes dá uma arrumadinha nas coisas, pra não passar a pior impressão? me sinto quase assim, entretanto, sem o lance de não querer passar impressões. é só uma questão de valorizada autossuficiência mesmo. pode ser orgulho, autoestima.

biblioteca parque estadual do rio de janeiro. lá existe um coro de pessoas que moram na rua. este ano, durante apresentação, a biblioteca recebia a visita de crianças de uma escola particular do rio, extremamente educadas e ternas, segundo relatos. que bonito crianças bem educadas. pararam para vê-los cantar. no meio dos moradores de rua, refugiados, estrangeiros que habitam as ruas da cidade, gente que fugiu da guerra na Síria. as crianças, alheias a preconceitos, afetuosas, se juntaram aos adultos, cantaram juntas, comungaram. existe uma ponta de esperança no lento movimento dos seres humanos em direção a um estranho progresso.

Marcia Tiburi faz uma boa reflexão sobre a expressão “morar na rua”. morar pressupõe ter uma casa e a rua não é a casa. “o status de “morador de rua” é apenas um modo de incluir os excluídos na ordem do discurso acobertadora do fascismo prático de cada dia”, diz ela.

as teses do início de A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, me lembram tweets, frases de efeito escritas de forma quase desarticuladas, depois reunidas em parágrafos quase nebulosos, mas que desanuviam e, em seguida, hegelizam, dificultando de novo. leitura de atrito.

walter benjamim registrando a cidade com a rapidez narrativa dos tempos de hoje.

quero contar um hobby: de vez em quando, ouço a mesma canção por longos minutos, até horas, interpretada por diferentes cantores. beleza das vozes, cada tempo, cada personalidade impressa à mesma estrutura. minha preferida é Dindi. cantam Astrud Gilberto, Tom Jobim, Vanessa da Mata, Maria Bethânia, Camila Pitanga. “se soubesses o quanto eu te quero”

I’ll look around. então ouço na sequência Madeleine Peroux, Billie Holiday, Nina Simone, Esperanza Spalding...

ouvir uma atrás da outra músicas com a palavra passarinho.

acho interessante quando alguém diz que tem certeza. eu não tenho certeza de nada. não tenho certeza do que, em tese, é o óbvio, como estar vivo.

***

vai sair um documentário sobre pessoas que fazem campeonatos de cócegas. só de pensar em ficar imobilizado enquanto fazem cosquinhas dá até uma contração no corpo, tamanha agonia. não quis ver vídeos, mas depois bateu curiosidade, deu até pra achar sexy. falaram assim: é como tortura, mas é bom, é melhor que sauna.

é lindo o prazer.

a complexidade do ser humano é maravilhosa mesmo. pena que o movimento de tolhê-la não cessa. pessoas, princípios femininos e masculinos correm atrás da autossabotagem, se apressam para reprimir os prazeres. e ainda somos chamados de inteligentes.

***

a inflação está altíssima. assim, tenho cozinhado mais. várias receitas novas.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Curry

Curry em português é caril, mas nunca ouvi ninguém falar essa palavra. Curry é uma mistura de condimentos que pode levar até setenta ingredientes diferentes na sua composição. Meu ex chamaria isso de alquimia. Falou, uma vez que misturei dois chás. Resultados imprevisíveis.
O "pó-de-caril" é feito à base de pó de açafrão-da-terra, cardamomo, coentro, gengibre, cominho, casca de noz-moscada, cravinho, pimenta e canela, disse-me uma vez a Wikipedia.
Londres, pra mim, tem cheiro de curry. Curry e café. Acho confortável. Um londrino me disse que o Brasil tem cheiro de comida em todo lugar, a céu aberto. Salsichão.
No Chile, vendem sushi no meio da rua, na saída do metrô, como se fosse churrasquinho aqui. Achei daoríssima, mas não comi.
Na Bolívia, comi só um pedacinho de carne de lhama. Tive medo de ter piriri, provei quase nada. Prioridades: preferi curtir a vista e as pessoas.
Londres que me atravessa, "seis graus de separação entre as monas". London, London, várias pessoas exiladas. Vários ricões.
***
Inventaram um objeto sexual assim: simula corpo de mulher, com peitos belos, que cabem na mão, mas o cu e a buceta são pra frente. Comer cu e tocar nos peitos tudo de frente, mas a semiboneca sexual tem nem rosto! Logo, não existe nem uma frente, nem um atrás. Lembrei da mulher de três peitos de O Vingador do Futuro. Filme ótimo, aliás. Há tempos que falo em fazer uma sessão pra ver isso lá em casa, mas não ponho em prática.
Respeitar os fetiches, pensar nos estranhamentos. Homens e mulheres objetos. O futuro é ciborgue, repito sempre.
Uma assessora de imprensa lá do nordeste me mandou no Whatsapp: sonhei com você a noite toda. Aí eu fiquei bolado, mas bolado de um jeito bom, intrigado e vaidoso. Sonhei com você a noite toda, que pira.
Comam.

domingo, 24 de abril de 2016

Guisado

*
paranoia: ser observado pela janela.

esconde mais esse celular, porque as ruas do rio estão cheias de roubadores de celular, o fetiche do celular, o fetiche dessa bosta de celular, comunica mais, manda mais profusão digital, manda mais notícia falsa no whatasapp!, manda nudes, manda a porra toda, faz mais selfie sem nada no fundo, só a tua cara mesmo, hipercomunica MAIS, que tá pouco! leva esse iPhone, por favor! ** smartphone **, ajuda a rodar a roda do mercado, deixa ele ficar obsoleto não. leva, ladrão, pra gente poder comprar o último modelo, então. fazer o quê, né? já que levaram, comprar o 6s.

**
a população de rua do rio só cresce, visível aos olhos. coisa triste demais. em frente aos Arcos, durante a semana, uma galera dorme ali no chão. depois que *reurbanizaram* aquele espaço, tiraram a grama, ficou só a praça vazia pra fazer evento, calçada por pedras largas. formam um desenho circular, e a população *de rua* deita alinhada ao desenho do chão, forma umas fileiras de gente deitada. eu passo e só penso em corpos mortos, quase mortos, tipo gente executada em chacina e ficou lá esperando a polícia, a Defesa Civil, algum aparato burocrático de estado.

o Lapa Presente fica lá a noite inteira, então é uma forma de dormirem protegidos. de gente que queima mendigo, por exemplo.

a passagem a R$3,80, a passagem pra voltar pra Baixada beirando os dez conto, aí o cabra dorme na rua mesmo. deslocar-se não é para todos. e “deslocar-se dignamente" não existe nem pra quem consegue pegar ônibus, trem ou metrô. não existe horário, não tem espaço, não tem trânsito que funcione, não há civilidade. Cidade que adoece as pessoas. cidade doente, tudo um pouco doente, mórbido, irritado.

**
deixei o cabelo crescer porque ele gostava. com exceção da época em que eu tinha até uns nove anos de idade, passei o resto da vida com a cabeça raspada, com ele curtinho, evitando os fios, escondendo. como pode? aí se passaram quase uns 18 anos, e por causa de amor eu voltei a cultivar mechas mais longas, que davam uma encaracoladinha. saí com você, você disse que eu estava bonito.

quando vi, não conseguia mais usar o cabelo raspado, porque sentia a minha cabeça pequenininha, agora parece sempre que falta algo, se vejo minha cara de careca.

veio uma onda negra e coloriu as cabeças do Rio de Janeiro, os cabelos ficaram mais vivos, modelados, livres, soltos por aí

**
vai só numa festa lá no Bola Preta pra tu ver. tá rolando um lance pós-gênero bem interessante, casado com a primavera das mulheres, mesclado a uma valorização tardia e linda dos cabelos negros. livres, soltos na tua cara, fazendo presença estéticopolítica enquanto festeja, uma coisa que choca bastante muita gente. até ouvi isso outro dia: “esse cabelo me agride”, disse uma pessoa racista (não para mim, felizmente. soube por terceiros).

**
a vida tá exigindo demais da gente, maluco. tá faltando tempo, sobrando trabalho pra quem tem emprego e brotando angústia. estar sempre um passo atrás do ritmo de máquina não é fácil

**
de que forma você luta? um pessoal do teatro fez um flashmob deitando no chão da Carioca, e eu me perguntei como aquilo ia ajudar a combater o golpe em curso no Brasil. sei que ajuda sim, manifestar-se nas ruas de diferentes formas é essencial, mas bateu um microdesespero; desses de impotência, que a gente que é contra o que está acontecendo tem sentido quase diariamente.

tô esperando que outro gigante acorde. que baita cansaço, Brasil. mas bora pro samba, bora ouvir carimbó na rua, bora pro forró. bora ver Game of Thrones.

do caralho, da buceta. grelo duro. associa mais a genitália à intensidade das coisas e dos atos, que tá pouco. melhor que palavrão machista, misógino, contra as putas, contra o ser humano.

**
para ouvir, se tu curte um groove eletrônico: Sinjin Hawke, Crystal Dust / para ouvir e curtir uma onda electroacústica brasileira e foda: Guizado, Girando. / para ouvir, quando a vida pedir que você acelere: Justice, Phantom Part. II

domingo, 3 de abril de 2016

o nome que sai da minha boca quando fraco eu vejo por dentro de mim

senti no peito vazio cheio de sentimentos, aperto semelhante à angustia, apenas parecido, não era. amor absurdamente intenso e vontade de enviar pelo telefone uma mensagem: eu te amo tanto. e mesmo tomado pela euforia concentrada entre os pulmões, racionalizei e guardei a mensagem para mim.

ao lado, um querido amigo. fazia muito frio em Paris. o dia amanhecia sem que tivéssemos dormido, assistíamos a coisas antigas, Gillian Hills cantando Zou Bisou Bisou e músicas da Françoise Hardy.

há homens que são como pássaros, sazonais, fogem do frio, vivem a cada temporada em outro hemisfério; tem homens que chegam nos lugares como um tubarão, alguns tomados pelo ciúme, alguns tomados por coisas que não sabemos o que são. um cara na internet leu um poema dedicado a uma águia, mas eu não entendi nada daquela língua, só achei bonito.

tatuagem no pescoço, um guindaste içando outro guindaste, os pássaros das famílias das harpias, as vezes em que você bebeu suor de homens, as vezes em que você quis mais, se entregou, esteve indefeso. desarmar-se completamente também é um ato necessário para viver melhor, fraquejar, deixar que te protejam.

discurso é construção coletiva. quem foram as pessoas que compartilharam direitinho um pouco do seu campo semântico? estar em sintonia é tão bom.

encontro cada vez mais gente com dois ou três namorados, namoradas. mais relações sem nome, sem a limitação do nome. a vida segue mais e mais veloz, o rio de janeiro transmutando-se para inferno completo. eu quero sair daqui, eu quero andar na rua sem ter que pensar se serei ou não assaltado, esfaqueado.

cristo redentor de braços abertos, chá de cidreira em copo de uísque, cigarros que matam e não acalmam. ainda sou capaz de ficar impressionado com o grau de drogadição das elites. o rio é uma cidade de bolhas, qual a força do seu sobrenome? louça e filosofia, máquina de lavar e filosofia, tomar banho e filosofia, água.

em paris, angústia. dois copos gigantes de chá, pra esquentar e acalmar.

chorar, para mim, é algo tão difícil.


quarta-feira, 9 de março de 2016

homem e música

quem é o homem que canta as coisas que você quer ouvir? quem é o homem que canta as coisas que você quer dizer? quem é o homem que diz exatamente o que você quer dizer? você gosta de homem?

Uma vez entrei no meio de uns g0ys e, apesar do clima bom, masculino, era tensão demais sem vazão. Difícil ficar só no desejo, reprimo não.

Pé de homem, suvaco de homem, cabelo de homem, barba, pescoço, virilha, barriga. [objetificação do homem] Homem-fruto, homem-feijoada, laranja, caipirinha. Comer um homem.

Que guapo eres. A língua presa entre os dentes na Espanha, paella, vinho, um calor madrilenho, andaluz, dourado. Já tive um namorado espanhol. Saudades.

Os dias mais sensoriais que tive aconteceram embaixo do sol. sentir a sola do tênis esquentar no asfalto, os momentos de passo arrastado sob quarenta graus, ó céu do Rio, ó sol tropical.

Por duas vezes na vida tive epifania, uma vez em Itacoatiara, outra vez em Paris! Diz que isso é manifestação de deus. Eu prefiro dizer revelação (do que seja). Deus me cansa demais.

Minha amiga teve uma epifania em Machu Picchu. Chegou lá em cima e sentiu vontade de pular, de morrer mesmo, se jogar no infinito, no inesperado, no grandioso demais pra não pirar. Felizmente não pulou.

Os dicionários que eu mais uso são Michaelis, Aulete e Houaiss, nessa ordem. Talvez eu não use muito o Houaiss porque pedi pra instalarem no computador lá do trabalho e não deu certo, sobrou só o de papel, mas a gente tem preguiça de levantar e abrir.

carnaval me deixou tão cansado que estou até enjoado da Bahia, sendo que nunca fui lá. Vou dar um tempo.

Estou há uma semana (tempo subjetivo) tentando encontrar uma voz que me traduza da melhor forma. Outro dia uma pessoa querida disse que não existe alguém que me (te) complete. Disse pra não me concentrar nisso. Não existe alguém que te complete! Aí eu dei uma caída em mim, pra pensar nesse lance de completar o outro, forma concreta, preencher espaços. Realmente, muito difícil. Aí eu pensei que pelo menos quem você gosta até que preenche uns espaços sim. Mas que não existe alguém que te complete eu entrei em acordo, porque não sou muito a favor de cem por centos, essas integralidades herméticas incomodam.

O homem. Kiko Dinucci, Curumin, Moreno Veloso, Caetano Veloso, Giberto Gil? Ou Sufjan Stevens, Jorge Drexler? Ou Gui Amabis, ou os carinhas do Boogarins, os carinhas do Terno, os carinhas da banda Dônica? Ou as coisas fofas do SILVA? Os caras legais do Abayomy, do Bixiga 70? O Chico César, o Djavan, o Carlinhos Brown? O Criolo, o Cartola, o Pélico? O Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta? O Mombojó, o Matheus Brant. Um cara que eu quero beijar a boca aí, vocalista de banda do Rio, os caras da Trupe Chá de Boldo, o fiscal da empresa de ônibus que eu vi hoje, mão por dentro da camisa pra sentir os pelos do peito, os caras das rodas de samba. Os, caras, das, rodas, de, samba! Uísque. Eu acho que fico com o Gui Amabis.

Você já comeu um pé de homem? Você já sentiu o cheiro, percorreu as mãos por entre os pelos? Já sentiu o calor?

Já te achei o cara mais bonito do mundo.