domingo, 24 de abril de 2016

Guisado

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paranoia: ser observado pela janela.

esconde mais esse celular, porque as ruas do rio estão cheias de roubadores de celular, o fetiche do celular, o fetiche dessa bosta de celular, comunica mais, manda mais profusão digital, manda mais notícia falsa no whatasapp!, manda nudes, manda a porra toda, faz mais selfie sem nada no fundo, só a tua cara mesmo, hipercomunica MAIS, que tá pouco! leva esse iPhone, por favor! ** smartphone **, ajuda a rodar a roda do mercado, deixa ele ficar obsoleto não. leva, ladrão, pra gente poder comprar o último modelo, então. fazer o quê, né? já que levaram, comprar o 6s.

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a população de rua do rio só cresce, visível aos olhos. coisa triste demais. em frente aos Arcos, durante a semana, uma galera dorme ali no chão. depois que *reurbanizaram* aquele espaço, tiraram a grama, ficou só a praça vazia pra fazer evento, calçada por pedras largas. formam um desenho circular, e a população *de rua* deita alinhada ao desenho do chão, forma umas fileiras de gente deitada. eu passo e só penso em corpos mortos, quase mortos, tipo gente executada em chacina e ficou lá esperando a polícia, a Defesa Civil, algum aparato burocrático de estado.

o Lapa Presente fica lá a noite inteira, então é uma forma de dormirem protegidos. de gente que queima mendigo, por exemplo.

a passagem a R$3,80, a passagem pra voltar pra Baixada beirando os dez conto, aí o cabra dorme na rua mesmo. deslocar-se não é para todos. e “deslocar-se dignamente" não existe nem pra quem consegue pegar ônibus, trem ou metrô. não existe horário, não tem espaço, não tem trânsito que funcione, não há civilidade. Cidade que adoece as pessoas. cidade doente, tudo um pouco doente, mórbido, irritado.

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deixei o cabelo crescer porque ele gostava. com exceção da época em que eu tinha até uns nove anos de idade, passei o resto da vida com a cabeça raspada, com ele curtinho, evitando os fios, escondendo. como pode? aí se passaram quase uns 18 anos, e por causa de amor eu voltei a cultivar mechas mais longas, que davam uma encaracoladinha. saí com você, você disse que eu estava bonito.

quando vi, não conseguia mais usar o cabelo raspado, porque sentia a minha cabeça pequenininha, agora parece sempre que falta algo, se vejo minha cara de careca.

veio uma onda negra e coloriu as cabeças do Rio de Janeiro, os cabelos ficaram mais vivos, modelados, livres, soltos por aí

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vai só numa festa lá no Bola Preta pra tu ver. tá rolando um lance pós-gênero bem interessante, casado com a primavera das mulheres, mesclado a uma valorização tardia e linda dos cabelos negros. livres, soltos na tua cara, fazendo presença estéticopolítica enquanto festeja, uma coisa que choca bastante muita gente. até ouvi isso outro dia: “esse cabelo me agride”, disse uma pessoa racista (não para mim, felizmente. soube por terceiros).

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a vida tá exigindo demais da gente, maluco. tá faltando tempo, sobrando trabalho pra quem tem emprego e brotando angústia. estar sempre um passo atrás do ritmo de máquina não é fácil

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de que forma você luta? um pessoal do teatro fez um flashmob deitando no chão da Carioca, e eu me perguntei como aquilo ia ajudar a combater o golpe em curso no Brasil. sei que ajuda sim, manifestar-se nas ruas de diferentes formas é essencial, mas bateu um microdesespero; desses de impotência, que a gente que é contra o que está acontecendo tem sentido quase diariamente.

tô esperando que outro gigante acorde. que baita cansaço, Brasil. mas bora pro samba, bora ouvir carimbó na rua, bora pro forró. bora ver Game of Thrones.

do caralho, da buceta. grelo duro. associa mais a genitália à intensidade das coisas e dos atos, que tá pouco. melhor que palavrão machista, misógino, contra as putas, contra o ser humano.

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para ouvir, se tu curte um groove eletrônico: Sinjin Hawke, Crystal Dust / para ouvir e curtir uma onda electroacústica brasileira e foda: Guizado, Girando. / para ouvir, quando a vida pedir que você acelere: Justice, Phantom Part. II

domingo, 3 de abril de 2016

o nome que sai da minha boca quando fraco eu vejo por dentro de mim

senti no peito vazio cheio de sentimentos, aperto semelhante à angustia, apenas parecido, não era. amor absurdamente intenso e vontade de enviar pelo telefone uma mensagem: eu te amo tanto. e mesmo tomado pela euforia concentrada entre os pulmões, racionalizei e guardei a mensagem para mim.

ao lado, um querido amigo. fazia muito frio em Paris. o dia amanhecia sem que tivéssemos dormido, assistíamos a coisas antigas, Gillian Hills cantando Zou Bisou Bisou e músicas da Françoise Hardy.

há homens que são como pássaros, sazonais, fogem do frio, vivem a cada temporada em outro hemisfério; tem homens que chegam nos lugares como um tubarão, alguns tomados pelo ciúme, alguns tomados por coisas que não sabemos o que são. um cara na internet leu um poema dedicado a uma águia, mas eu não entendi nada daquela língua, só achei bonito.

tatuagem no pescoço, um guindaste içando outro guindaste, os pássaros das famílias das harpias, as vezes em que você bebeu suor de homens, as vezes em que você quis mais, se entregou, esteve indefeso. desarmar-se completamente também é um ato necessário para viver melhor, fraquejar, deixar que te protejam.

discurso é construção coletiva. quem foram as pessoas que compartilharam direitinho um pouco do seu campo semântico? estar em sintonia é tão bom.

encontro cada vez mais gente com dois ou três namorados, namoradas. mais relações sem nome, sem a limitação do nome. a vida segue mais e mais veloz, o rio de janeiro transmutando-se para inferno completo. eu quero sair daqui, eu quero andar na rua sem ter que pensar se serei ou não assaltado, esfaqueado.

cristo redentor de braços abertos, chá de cidreira em copo de uísque, cigarros que matam e não acalmam. ainda sou capaz de ficar impressionado com o grau de drogadição das elites. o rio é uma cidade de bolhas, qual a força do seu sobrenome? louça e filosofia, máquina de lavar e filosofia, tomar banho e filosofia, água.

em paris, angústia. dois copos gigantes de chá, pra esquentar e acalmar.

chorar, para mim, é algo tão difícil.