segunda-feira, 27 de junho de 2016

a espuma dos dias

apesar de gostar de Michel Gondry, Romain Duris e Audrey Tautou, não gostei de a espuma dos dias. mas é como ter amigos e não aprovar tudo o que fazem. pessoas queridas também te enchem a paciência, como pais, irmãos, a gente mesma, pessoas.

nunca fiz terapia, mas tenho vontade. aí fico trabalhando a ideia, fazendo autoterapia antes de escolher fazer as sessões. sabe dona de casa que espera a faxineira pra fazer o serviço, mas antes dá uma arrumadinha nas coisas, pra não passar a pior impressão? me sinto quase assim, entretanto, sem o lance de não querer passar impressões. é só uma questão de valorizada autossuficiência mesmo. pode ser orgulho, autoestima.

biblioteca parque estadual do rio de janeiro. lá existe um coro de pessoas que moram na rua. este ano, durante apresentação, a biblioteca recebia a visita de crianças de uma escola particular do rio, extremamente educadas e ternas, segundo relatos. que bonito crianças bem educadas. pararam para vê-los cantar. no meio dos moradores de rua, refugiados, estrangeiros que habitam as ruas da cidade, gente que fugiu da guerra na Síria. as crianças, alheias a preconceitos, afetuosas, se juntaram aos adultos, cantaram juntas, comungaram. existe uma ponta de esperança no lento movimento dos seres humanos em direção a um estranho progresso.

Marcia Tiburi faz uma boa reflexão sobre a expressão “morar na rua”. morar pressupõe ter uma casa e a rua não é a casa. “o status de “morador de rua” é apenas um modo de incluir os excluídos na ordem do discurso acobertadora do fascismo prático de cada dia”, diz ela.

as teses do início de A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, me lembram tweets, frases de efeito escritas de forma quase desarticuladas, depois reunidas em parágrafos quase nebulosos, mas que desanuviam e, em seguida, hegelizam, dificultando de novo. leitura de atrito.

walter benjamim registrando a cidade com a rapidez narrativa dos tempos de hoje.

quero contar um hobby: de vez em quando, ouço a mesma canção por longos minutos, até horas, interpretada por diferentes cantores. beleza das vozes, cada tempo, cada personalidade impressa à mesma estrutura. minha preferida é Dindi. cantam Astrud Gilberto, Tom Jobim, Vanessa da Mata, Maria Bethânia, Camila Pitanga. “se soubesses o quanto eu te quero”

I’ll look around. então ouço na sequência Madeleine Peroux, Billie Holiday, Nina Simone, Esperanza Spalding...

ouvir uma atrás da outra músicas com a palavra passarinho.

acho interessante quando alguém diz que tem certeza. eu não tenho certeza de nada. não tenho certeza do que, em tese, é o óbvio, como estar vivo.

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vai sair um documentário sobre pessoas que fazem campeonatos de cócegas. só de pensar em ficar imobilizado enquanto fazem cosquinhas dá até uma contração no corpo, tamanha agonia. não quis ver vídeos, mas depois bateu curiosidade, deu até pra achar sexy. falaram assim: é como tortura, mas é bom, é melhor que sauna.

é lindo o prazer.

a complexidade do ser humano é maravilhosa mesmo. pena que o movimento de tolhê-la não cessa. pessoas, princípios femininos e masculinos correm atrás da autossabotagem, se apressam para reprimir os prazeres. e ainda somos chamados de inteligentes.

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a inflação está altíssima. assim, tenho cozinhado mais. várias receitas novas.